quarta-feira, janeiro 19, 2022
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    A Greenpass já chacoalhou a Sem Parar — agora é a vez da indústria do frete

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    Carlo Andrey Gonçalves e João Cumerlato talvez já possam pedir música no Fantástico. A dupla, que saiu de Odebrecht para criar a ConectCar, montou, há uma década, o primeiro competidor a desafiar a então monopolista Sem Parar no mercado de tags de pedágio — um negócio de R$ 20 bilhões.

    Cinco anos depois, os dois repetiram a dose. Ao fundarem a Greenpass, uma startup de soluções de mobilidade white label, a competição que ajudaram a fomentar com a ConectCar ficou ainda mais acirrada quando lançaram a Taggy, tecnologia de pagamento de pedágio que debita direto da conta corrente e passou a ser usada por bancos digitais como C6 e Inter.

    Numa indústria com players controlados por sócios endinheirados — a Sem Parar pertence à americana Fleetcor; a ConectCar, ao Itaú; e a Veloe, à sociedade entre Bradesco e BB —, a Greenpass mostrou que a cobrança de mensalidade para o uso da tag de pedágio ficou obsoleta. Não à toa, a Veloe correu atrás e também criou o seu serviço white label, oferecendo para instituições como o próprio C6. Mais recentemente, a ConectCar lançou a tag gratuita do Itaú.

    A terceira aposta dos fundadores da Greenpass começou a ser testada nesta semana. Desta vez, o mercado é bem maior. A startup de mobilidade criou uma tecnologia para atender o caminhoneiro e disputar o mercado de frete rodoviário, um colosso de R$ 200 bilhões ainda dominado pela arcaica carta frete, arranjo de pagamento ilegal cada vez mais fiscalizado pela ANTT.

    Historicamente, os caminhoneiros — um contingente de 2,4 milhões, dos quais 900 mil autônomos — comem na mão dos embarcadores e transportadores. Ao acertar um frete, o caminhoneiro recebe um adiantamento na forma de uma carta frete que pode ser descontada numa rede de postos de combustível credenciada pelo contratante.

    Nesse modelo, a desvantagem do caminhoneiro é clara. “Além de não poder escolher o posto de combustível de sua preferência, o caminhoneiro paga um overprice pelo diesel. E olha que ele gasta uns 40% do frete só com combustível”, diz Gonçalves.

    Mesmo proibida desde 2007, a prática é hegemônica, uma idiossincrasia típica do Brasil. “Até hoje, uns R$ 170 bilhões desse mercado de R$ 200 bilhões é pago com carta frete”, conta o sócio da Greenpass. De lá para cá, a regulação vem tentando criar mais mecanismos para fortalecer o caminhoneiro, que passou a ter o poder (ainda que apenas de direito, e não necessariamente de fato) de escolher como receber o frete.

    Na parte regular do mercado de frete — que responde por R$ 30 bilhões —, a competição também não chega a ser exuberante. Para processar os pagamentos de frete, a ANTT criou em 2009 a figura das IPEFs (sigla para Instituição de Pagamento Eletrônico de Frete), que não pode pertencer a transportadoras ou embarcadores. Até existem 28 IPEFs, mas praticamente todas utilizam uma mesma solução, o Visa Cargo — cartão físico usado para pagar frete e pedágio.

    Na indústria de pagamento de frete e pedágio de transporte rodoviário, Repom (uma companhia do grupo Endered, dono da Ticket) e RoadCard (Pamcard) são as líderes. “O Visa Cargo é melhor que a carta frete, mas o caminhoneiro precisa parar na praça de pedágio para pagar e às vezes ir até um local físico para carregar o cartão”, diz o fundador da Greenpass.

    A tecnologia desenvolvida pela Greenpass quer mudar essa dinâmica, ganhando share da carta frete e competindo diretamente com a Visa com uma solução mais adaptada ao mundo digital. Batizada de Flow, a tecnologia da startup é uma carteira digital white label construída pensando nas necessidades do caminhoneiro que também oferece serviços financeiros tradicionais, como pagamento de boleto, PIX e pagamento de contas.

    A carteira digital da Greenpass conta, é claro, com um módulo especial para vale-pedágio e pagamento do frete. Ao contrário do Visa Cargo, a solução oferece uma solução de pagamento automático, nos mesmos moldes da tag, debitando automaticamente o valor da carteira digital. A solução foi desenvolvida em parceria com a Mastercard, que há anos busca ingressar nesse mercado liderado pela rival Visa.

    A ideia é que a tecnologia do Flow seja usada por diferentes clientes. Assim como C6, Inter, Sicredi e outros contratam a tag de pedágio da Greenpass para oferecê-la aos clientes, transportadoras e IPEFs como a Repom poderão contratar o Flow e atender sua base de caminhoneiros e, com isso, também oferecer um cartão — com a bandeira Mastercard — ao motorista.

    “A carteira digital pode ser customizada, incluindo contratos de frete e comprovantes de pagamento”, conta Gonçalves. A solução terá um marketplace aberto, onde serviços associados às necessidades dos caminhoneiros — de oficinais ao varejo de peças — poderão ingressar para vender os produtos. A Greenpass vai dividir o take rate com o dono da carteira digital white label.

    A startup não abre o nome das duas primeiras companhias que começaram a testar sua carteira digital nesta semana, mas a oferta de serviços financeiros para caminhoneiros é algo que vem despertando a atenção de grandes empresas — potenciais clientes da Greenpass. Recentemente, a Simpar — holding da família Simões que controla a JSL — contratou o ex-BB e Cielo Paulo Caffarelli para liderar a BBC, uma empresa de leasing e banco digital para caminhoneiros.

    O crescente interesse na área é um resultado da evolução da legislação. Uma das maiores apostas da Greenpass é o Documento de Transporte Eletrônico (DTE), ferramenta que vai funcionar como uma espécie de holerite dos motoristas e vem sendo citada como uma das principais medidas do ministro Tarcísio de Freitas nas relações (conturbadas) com os caminhoneiros.

    “Com a DTE em operação, os contratos de cargas vão ser registrados e todos os documentos serão reunidos num único. O caminhoneiro vai poder fazer antecipação de recebíveis, coisa que hoje não tem”, vislumbra o sócio da Greenpass.

    Para a Greenpass, a nova solução é também a oportunidade para diversificar mercado. A receita com tag com pagamento automático de pedágio, que atende 600 mil pessoas, ainda cresce mais de 50% ao ano, mas a tecnologia já virou commodity. No futuro, a startup também poderá entrar em outras soluções de mobilidade, de bikes a transporte público, sempre com um produto white label.

    Além dos fundadores, Greenpass conta com investidores que conhecem bem o mercado financeiro: José Luiz Acar, ex-BTG Pactual e fundador da gestora Nau Capital, José Bonchristiano (ex-Goldman Sachs e fundador da Tempo Participações) e o conselheiro do FGC Gustavo Jobim (ex-Brasilpar, Goldman Sachs e GPS Investimentos).

    Fonte: Pipeline Valor

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