quarta-feira, fevereiro 24, 2021
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    Dívida, briga e frango frito: o inferno astral da IMC

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    O inferno astral da International Meal Company (IMC), dona das redes Frango Assado e Viena, tem de tudo. A pandemia realmente caiu como uma bomba atômica no negócio, que também representa as bandeiras Pizza Hut e no Brasil. Há desde repercussões mais imediatas, como queda na receita, até outras mais profundas. Por exemplo: a administração do negócio foi parar na berlinda. E agora, a novidade da vez, é que até as bandeiras geridas não estão garantidas. A KFC quer dar fim ao contrato.

    Em meio a todos esses problemas, que obviamente vieram acompanhados de uma desvalorização do negócio, a companhia atraiu um novo grupo de acionistas. Dos sócios novos, UV Gestão e Faro Capital, pouco se conhece. Ambas as gestoras concentram recursos de famílias que fizeram seu patrimônio no agronegócio. Mas o que o mercado já sabe é que estão dispostos a tomar as rédeas da situação para colocar a operação nos trilhos. Esses investidores acabam de sentar no conselho de administração, assumiram duas vagas em sete, e contam com apoio de outros acionistas para promover mudanças no negócio.

    Sem dono

    Desde que a gestora de private equity Advent — origem do presidente da empresa, Newton Maia — saiu da operação, a IMC ficou sem um norte. A empresa, que já tinha o capital pulverizado no mercado, perdeu a figura de um investidor com grande fatia e disposto a dar as diretrizes, alguém que pudesse representar ‘o olho do dono’.

    O maior acionista, por um tempo, foi a Itaú Asset, que chegou a alcançar uma fatia da ordem de 25% do capital. Apesar de diligente, a gestora não tem como foco “conduzir” negócios. Nem de longe é o perfil ou desejo do Itaú. Além disso, a casa sistematicamente foi reduzindo a participação, desde a saída de André Caldas da liderança da gestão de recursos, que tinha uma estratégia de forte exposição ao setor de consumo. A gestora, que tem 760 bilhões de reais em ativos sob gestão, anunciou ontem, dia 19 de janeiro, que seu investimento na empresa caiu para 2,8%, — ante 8,8% no fim de novembro.

    Enquanto Itaú reduziu o investimento, as gestoras UV e Faro, tão próximas que são consideradas quase um só negócio, aumentaram. São as novas “donas” da IMC. Alcançaram uma fatia de quase 23% do capital. Nos tempos de Advent, a Faro foi sócia importante e chegou a participar do conselho, mas saiu do investimento quase junto com a gestora de private equity. Nesse retorno, veio com um plano já pronto para o negócio, que inclui a venda de alguns ativos nos Estados Unidos.

    Há pouco mais de uma semana, no dia 11, os novos sócios emplacaram uma mudança no conselho de administração. Luiz Fernando Ziegler de Saint Edmond e Lucas Rodas foram anunciados como novos conselheiros de administração, no lugar de Rodrigo Neiva Furtado e José Agote, que renunciaram a suas posições para uma transição mais simplificada.

    Com a empresa avaliada em 1 bilhão de reais, e prestes a romper esse piso mais uma vez, o presidente Newton Maia não está com seu futuro nada garantido. Os novos sócios “de referência” querem ajeitar a operação com ou sem o executivo.

    Brigas

    Há uma lista de problemas com os quais a empresa vem convivendo desde que a pandemia estourou, como a perda de receita e a pressão da dívida. O problema da vez, que o mercado conheceu nesta terça-feira, 19, é o rompimento com a rede de frangos fritos KFC, que denunciou o contrato com a empresa brasileira por descumprimento de metas de abertura de novas lojas.

    E essa discussão não é a primeira. A família Martins, de Carlos Wizard Martins, reunida na holding Sforza, é dona de quase 9% da IMC. Em dezembro, a dona das redes Frango Assado e Viena iniciou uma arbitragem contra esses sócios.

    A Sforza detém as marcas Mundo Verde, Aloha, Topper, Rainha, Ronaldo Academy, além dos direitos de Pizza Hut, KFC e Taco Bell no Brasil. É por meio da Sforza que a IMC atua com as duas tradicionais bandeiras americanas por aqui. A família Martins entende que foi prejudicada com a oferta de ações de julho, pois teve a participação diluída.

    Pelos comunicados desta terça-feira, 19, tudo indica que, sem um acordo, a questão com a KFC também pode virar uma disputa arbitral com processos de ambos os lados. Em causa, além da operação da bandeira no Brasil, há uma multa de valor desconhecido que os dois lados vão querer cobrar com alegação de ruptura de contrato.

    O acordo com a Pizza Hut passou por uma revisão de cláusulas mais amigável, sem maiores traumas até o momento, para se adequar à vida pós-pandemia. A companhia anunciou que houve revisão das condições, sem detalhar as alterações. Mas, depois do que houve com KFC, há investidor que questiona quanto tempo de paz terá a empresa brasileira na relação com a Pizza Hut.

    Como arbitragens, em geral, são sigilosas, o mercado também não sabe exatamente a quais riscos exatamente a IMC está exposta com as discussões em andamento. Não se sabe quais perdas podem vir com essas disputas.

    Dinheiro contado

    A IMC está com os investimentos limitados. No ano passado, no auge do estresse, a empresa teve de renegociar as condições de debêntures emitidas em 2019, num total de 400 milhões de reais. Nessa negociação, acabou por aderir a uma cláusula que limitava seu investimento em expansão a 90 milhões de reais — montante que poderia, no máximo, dobrar, a depender de uma capitalização. Além disso, tem metas de alavancagem a cumprir que a fazem segurar os gastos, para manter uma posição em caixa mais robusta.

    Até setembro deste ano, a relação entre a dívida líquida e o Ebitda acumulado em 12 meses não pode ultrapassar 7,5 vezes. E, ao fim deste ano, precisa estar em 5 vezes. Daí o esforço para controlar a dívida líquida com um saldo de caixa elevado.

    A renegociação também trouxe custo extra à dívida da companhia. As captações, em duas séries, que custavam CDI mais 1,15% e 1,60% tiveram as taxas elevadas para 4,85% e 5,30%, respectivamente.

    Após o reforço de caixa com uma oferta de ações em julho que trouxe 385 milhões de reais ao caixa, a dívida líquida ficou em 86 milhões de reais ao fim de setembro. Mas o Ebitda acumulado nos primeiros nove meses registrava queda de quase 79%, para 39,2 milhões de reais. Esse montante exclui eventos extraordinários, como a baixa contábil no valor de 324 milhões de reais relacionada à compra de alguns ativos, como as bandeiras Viena e Batata Inglesa, realizada no terceiro trimestre.

    Com aeroportos vazios e shoppings fechados, a receita líquida da empresa caiu 37% no acumulado dos primeiros nove meses de 2020, para 816 milhões de reais.

    No auge de sua história na bolsa, a ação da IMC valia 11,25 reais — era, então, o segundo semestre de 2018. Naquele ano, a empresa recusou uma fusão com a Sapore, disposta a comprar uma fatia dos papéis a 8,60 reais. Desde esse pico, porém, a companhia só perde valor. Na oferta de julho, a ação saiu a 4,25 reais. Ontem, após um tombo de 9%, a ação encerrou o dia a 3,64 reais.

    Fonte: Exame

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