quarta-feira, junho 23, 2021
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    Fenômeno ‘femtech’: startups com soluções para mulheres ganham mercado

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    As mulheres representam metade da população do planeta. No entanto, as empresas de tecnologia que atendem às suas necessidades específicas de saúde compõem uma parcela minúscula desse mercado global.

    Em 2019, a indústria “femtech” – empresas de software e tecnologia que atendem às necessidades biológicas femininas – gerou 820,6 milhões de dólares em receita global e recebeu 592 milhões de dólares em investimentos de capital de risco, de acordo com a PitchBook, que trabalha com pesquisa e dados financeiros. No mesmo ano, só o aplicativo de compartilhamento de caronas Uber arrecadou 8,1 bilhões de dólares em sua oferta pública inicial. A diferença de escala é impressionante, considerando-se especialmente que as mulheres gastam cerca de 500 bilhões de dólares anuais em despesas médicas, também segundo a PitchBook.

    Aproveitando esse poder de compra, vários aplicativos e empresas de tecnologia surgiram na última década para atender às necessidades femininas, incluindo monitoramento da menstruação e da fertilidade, e oferecendo soluções para gravidez, amamentação e menopausa. Startups médicas também contribuíram para prevenir ou gerenciar condições graves como o câncer.

    “O potencial do mercado é enorme. Há definitivamente uma busca crescente por qualquer coisa tecnológica, e uma percepção de que o poder de consumo das mulheres está aí e chegou aos cuidados de saúde”, disse Michelle Tempest, sócia da consultoria de saúde Candesic, com sede em Londres, e psiquiatra por formação.

    Tempest acredita que uma das razões pelas quais as necessidades femininas não chegaram ao campo da tecnologia é que a pesquisa em ciências da vida era esmagadoramente “adaptada ao corpo masculino”. Em 1977, a FDA, agência americana responsável pelo controle de alimentos e drogas, excluiu mulheres em idade fértil dos testes de drogas. Desde então, elas são sub-representadas nesses testes, segundo Tempest, por causa da crença de que as flutuações causadas pelos ciclos menstruais poderiam afetar os resultados e também porque, se uma mulher engravidasse depois de tomar uma droga experimental, isso poderia prejudicar o feto. Ela observou que, como resultado, “ficamos atrás dos homens”.

    O termo “femtech” foi cunhado por Ida Tin, dinamarquesa fundadora do Clue, aplicativo de rastreamento de ovulação criado na Alemanha em 2013. Em um artigo no site da empresa, Tin relembra como teve a ideia para o aplicativo. Em 2009, ela se viu segurando um celular em uma mão e um pequeno dispositivo para medir a temperatura na outra, e desejando poder unir os dois para monitorar seus dias de fertilidade, em vez de precisar anotar manualmente sua temperatura em uma planilha.

    O Clue permite que as mulheres façam exatamente isso com alguns toques em seu smartphone. Hoje, a empresa tem muita concorrência na área de monitoramento de períodos menstruais e fertilidade. Além disso, muitas outras ferramentas específicas para as mulheres chegaram ao mercado. A Elvie, empresa com sede em Londres, comercializou uma bomba de leite de vestir e um aplicativo de exercícios pélvicos. Outra vertente da femtech conhecida como “menotech” visa melhorar o estilo de vida das mulheres que passam pela menopausa, fornecendo acesso à telemedicina, e informações e dados que podem ser explorados. Por fim, existem empresas de tecnologia médica focadas nos tipos de câncer que afetam as mulheres, como o de colo do útero e o de mama.

    Segundo a Organização Mundial da Saúde, o câncer do colo do útero é a quarta causa mais comum de câncer entre as mulheres em todo o mundo. Em 2018, cerca de 570 mil o tiveram, e quase 311 mil morreram. A OMS anunciou em novembro um programa para erradicar completamente a doença até 2030.

    A MobileODT, startup com sede em Tel Aviv, em Israel, usa smartphones e inteligência artificial para testar o câncer cervical. Um colposcópio inteligente – dispositivo de imagem portátil pouco maior que um smartphone – é usado para tirar uma foto do colo do útero a uma distância de cerca de um metro. A imagem é então transmitida para a nuvem por meio de um smartphone, na qual a inteligência artificial identifica evidências cervicais normais ou anormais.

    O diagnóstico é feito em cerca de 60 segundos – em comparação com as semanas necessárias para receber os resultados de um exame padrão (que, nos países em desenvolvimento, pode durar meses). Além dessa triagem, os médicos ainda fazem testes de esfregaço.

    A tecnologia foi usada recentemente para selecionar nove mil mulheres durante um período de três meses na República Dominicana como parte de uma campanha liderada pelo governo, segundo divulgação da empresa no mês passado. Espera-se que outras 50 mil mulheres sejam examinadas nos próximos seis meses.

    Leon Boston, executivo-chefe da MobileODT nascido na África do Sul, disse que a empresa privada estava vendendo para cerca de 20 países diferentes, incluindo os Estados Unidos, a Índia, a Coreia do Sul e o Brasil, e vai iniciar uma rodada de arrecadação para conseguir US$ 24 milhões iniciais.

    Mas a principal forma de câncer entre mulheres em todo o mundo é o câncer de mama. Uma startup francesa está focada em lidar com suas consequências. A Rettice Medical desenvolveu um implante oco de mama impresso em 3D que permite a regeneração do tecido e é absorvido pelo corpo ao longo do tempo.

    Como funciona: depois da mastectomia, o cirurgião colhe um pequeno pedaço de gordura da área imediatamente ao redor do seio da mulher e a coloca dentro da bioprótese impressa em 3D. Esse pedaço de tecido cresce dentro do implante e acaba por preenchê-lo. O implante desaparece completamente 18 meses depois.

    Até agora, os testes em animais têm sido encorajadores, afirmou Julien Payen, cofundador e executivo-chefe da empresa, acrescentando que os ensaios clínicos devem começar em 2022, com o objetivo de colocar o produto no mercado em 2025.

    Perguntado por que o mercado global de femtech era tão pequeno em matéria de empresas de tecnologia, Boston disse que isso se devia em parte ao “alto nível de regulação” envolvido na tecnologia médica. “Se sua tecnologia está incorreta e oferece um resultado errado, a mulher que obteve um resultado negativo para o câncer cervical tem de fato um teste positivo. Como resultado, o mundo da tecnologia médica se desenvolve lentamente.”

    Ainda assim, de acordo com Boston, as perspectivas são favoráveis. “É muito raro um mercado totalmente estéril aberto para um grande potencial como temos hoje na tecnologia médica.”

    As previsões dos dados parecem apoiar isso. De acordo com um relatório de março de 2020 da consultoria de pesquisa e estratégia Frost & Sullivan, a femtech pode chegar a gerar US$ 1,1 bilhão até 2024.

    Payen explicou que, para que o mercado femtech se expanda e se desenvolva, deve haver mais empresas de tecnologia oferecendo benefícios genuínos para a saúde das mulheres, não apenas aplicativos de bem-estar lotando o mercado e adicionando pouco em relação à saúde ou ao valor médico. Ele citou o exemplo da Endodiag, empresa francesa de tecnologia médica que permite o diagnóstico precoce da endometriose e um tratamento melhor da condição.

    De qualquer forma, o setor se mostra promissor, de acordo com Payen: “Nos últimos dez anos, graças ao #MeToo e a outros movimentos, as mulheres estão sendo ouvidas, mais do que nunca. Cada vez mais mulheres estão administrando empresas e fundos de investimento. Daqui a dez ou 15 anos, à medida que uma nova geração se estabelecer, as coisas terão mudado ainda mais radicalmente. A femtech está claramente pronta para crescer.”

    Fonte: New York Times

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