sexta-feira, abril 16, 2021
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    O IPO da soja: Boa Safra Sementes pode valer mais de R$ 1 bi

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    A Boa Safra Sementes— a maior sementeira de soja do Brasil — está vindo ao mercado com um raro IPO do agronegócio que pode avaliar a companhia em R$ 1,1 bilhão (post money) no piso da faixa indicativa que vai de R$ 9,90 a R$ 12,60.

    A companhia de Formosa, uma pequena cidade goiana a 80 km de Brasília, quer levantar R$ 460 milhões numa oferta 100% primária para financiar um plano agressivo de consolidação.

    Segundo o prospecto, a HIX Capital — que tem um histórico de apostas concentradas em nomes como Sinqia e Light — está ancorando a oferta com um cheque de R$ 80 milhões no piso da faixa, com a prerrogativa de acompanhar o preço final. O roadshow começa esta semana e a precificação está marcada para 27 de abril.

    Num mercado que costuma premiar o crescimento com múltiplos altos, o valuation da Boa Safra parece um ponto fora da curva: no piso da faixa, a empresa, cujo faturamento cresce a uma taxa média anual de 38% desde 2018, deve sair a 10x o lucro estimado para este ano e 5x EV/EBITDA.

    A Boa Safra opera como um intermediário entre as grandes multinacionais de genética — Syngenta, Bayer, Basf, Cortera, Ndera e Brasmax — e os fazendeiros de soja. Ela licencia a biotecnologia desenvolvida por essas multinacionais e faz a multiplicação da genética em escala comercial.

    Para isso, tem parceria com 160 produtores integrados que reproduzem as sementes em suas fazendas e depois as entregam para uma de suas cinco fábricas de processamento. Nessas plantas, a Boa Safra separa e classifica as sementes com maior potencial de germinar e as submete a um processo de refrigeração numa câmara fria, o que diminui a atividade celular da semente, que entra numa espécie de hibernação.

    Quando ficam prontas, as sementes são vendidas para mais de 500 lojas agropecuárias em 11 estados.

    Apesar de ser a líder em sementes de soja do País, a Boa Safra tem um market share de apenas 5,7%. Um dos selling points do IPO é justamente a capacidade da companhia de consolidar um mercado ainda extremamente pulverizado e informal.

    Para se ter uma ideia, os três maiores players dos EUA dominam 59% das vendas, com o primeiro player tendo um share de 23%.

    A companhia também tem falado a investidores sobre a qualidade de seu produto, que tem um dos melhores índices de germinação do mercado (o indicador mede quantas sementes plantadas germinam de fato). Enquanto a média do setor foi de 85% na safra 2019/2020, a da Boa Safra foi de 94,1%, segundo o Ministério da Agricultura.

    No ano passado, a Boa Safra foi uma de três empresas brasileiras que recebeu o prêmio Germina 90 da Monsoy, uma subsidiária da Monsanto. O prêmio só vai para empresas cujas sementes têm taxa de germinação maior que 90.

    O IPO permite ao investidor brasileiro exposição direta ao crescimento da demanda global por soja — que deve ganhar tração nos próximos anos com a maior demanda da China e o aumento de renda em países como Índia, Egito e Bangladesh.

    “Há estudos que mostram que quando um país bate uma renda per capita de US$ 2 mil, há um aumento significativo na importação de proteína vegetal,” diz um executivo do setor.

    A Boa Safra espera quadruplicar sua capacidade produtiva até 2026, chegando a 9,5 milhões de sacos, com a ampliação das fábricas atuais e a abertura de outras cinco — uma delas, na Bahia, já está em construção. A projeção não inclui eventuais M&As, que também estão na agenda.

    A Boa Safra foi fundada em 1979 pelo agrônomo Neri Carlos Colpo — um gaúcho que se mudou para o Centro-Oeste atraído por um Brasil onde tudo era possível. Neri fez a viagem de moto.

    A empresa deu seu grande salto em 2009, quando o filho de Neri, Marino — que havia feito um curso sobre mercado financeiro e commodities na Northwestern University, em Chicago — voltou ao Brasil e assumiu o comando da empresa. Na época, a Boa Safra faturava R$ 32 milhões e tinha uma estrutura pouco profissionalizada.

    Marino resolveu implementar o sistema de gestão da SAP — de quem a Boa Safra era a menor cliente no País.

    “Quando eu vim com essa ideia todo mundo me chamou de louco,” ele disse a investidores durante o processo de ‘investor education’. “Era um negócio bem familiar, que rodava na pessoa física ainda, e eu queria implementar um dos sistemas mais robustos de gestão do mundo.”

    A adaptação foi complexa e seu pai passou o primeiro ano chamando o SAP de ‘Sistema de Atraso de Pagamentos,’ Marino contou a investidores.

    No final, a aposta deu certo: a empresa multiplicou seu faturamento por quase 20x nos últimos 10 anos. Ano passado, a Boa Safra faturou R$ 589 milhões com EBITDA de R$ 105 mi. O lucro líquido foi de R$ 70 milhões, e o ROE, de 64,5%.

    A HIX deve indicar o ex-CEO da BrasilAgro, Julio Piza, para o conselho. Julio é board member da Kepler Weber, Atvos e Terra Santa e senior adviser da McKinsey para agribusiness.

    Hoje, o board é presidido por Camila Colpo (irmã de Marino) e inclui Gerhard Bohne, ex-CEO da Bayer até novembro e ex-chairman da Orbia (o marketplace de insumos da Bayer); Pedro Fernandes, sócio da aceleradora de startups ACE; e Carlos Bartilotti, professor da Fundação Dom Cabral e conselheiro do Hermes Pardini.

    Os coordenadores da oferta são a XP (líder) e o Banco do Brasil.

    Fonte: Brazil Journal

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