sexta-feira, dezembro 4, 2020
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    As Bolsas derreteram no mundo nesta quarta-feira (28/10), por causa do aumento de casos do novo coronavírus na Europa e nos Estados Unidos. O temor é o de que os governos tenham que voltar a adotar medidas rigorosas de isolamento social, travando novamente toda atividade econômica global. Segundo especialistas, o impacto dessa onda de pessimismo atinge o Brasil também por causa de problemas internos, em especial a elevada dívida pública, que tem alimentado a saída de investidores estrangeiros e o fraco crescimento econômico.

    No mercado brasileiro, o Ibovespa operou no vermelho desde a abertura, enquanto o dólar seguiu em alta ante o real, mesmo após intervenção do Banco Central para conter o movimento. Para os analistas, uma segunda onda da covid-19 pode fechar as economias globais e afetar ainda mais o fluxo de investimentos para o Brasil, que já é fraco. E, nesse cenário, o governo brasileiro pode ser pressionado a adotar medidas consideradas populistas pelo mercado, abrindo mão do controle de gastos.

    “Os motivos para as quedas dos mercados já são nossos velhos conhecidos. Contaminação pela covid-19 aumentando em diversos países, eleições americanas virando uma grande loteria e safra de resultados do terceiro trimestre afetando pontualmente muitas empresas”, disse o economista-chefe do banco digital Modalmais, Alvaro Bandeira, profissional com mais de 40 anos de mercado e passagens por cargos na Bolsa e na presidência da Apimec (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais).

    Para o economista-chefe da Nova Futura Investimentos, Pedro Paulo Silveira, a aversão a risco entre os investidores no mercado brasileiro é ampliada por questões locais ligadas a gastos do governo e à política. “Após Rodrigo Maia dizer que parte da base governista obstrui os projetos de cunho econômico, os agentes viram a possibilidade de as pautas reformistas terem maior resistência no Congresso. Somado aos riscos externos ligados ao coronavírus e à aproximação das eleições americanas, isso deu ainda mais força à ponta vendedora” [venda de ações, derrubando a Bolsa], disse.

    Dívida pública deixa Brasil mais fragilizado

    Segundo analistas, não haveria como o Brasil escapar dessa onda de pessimismo do dia, mas o fato de a economia brasileira ter entrado na crise de forma mais fragilizada, em especial por causa do elevado endividamento do setor público, amplia esse pessimismo entre os agentes de mercado.

    Segundo levantamento mensal feito pelo Ministério da Economia no relatório Prisma Fiscal com economistas e consultores, o governo central deve fechar 2020 com déficit primário recorde de R$ 858,2 bilhões e uma dívida bruta equivalente a 94,5% do PIB, aumentando para 95,7% do PIB em 2021. Para comparar, até agosto, a dívida bruta estava em 88,8% do PIB, já um nível recorde.

    “Todos os governos do mundo estão gastando muito para enfrentar a crise econômica provocada pela covid-19. Mas se a gente comparar os gastos deste ano a uma foto, podemos dizer que a foto é ruim para todos. Já se a gente analisar o histórico do déficit fiscal, como se fosse um filme, vemos que o Brasil tem não apenas uma foto ruim mas também um filme ruim”, diz o coordenador do Centro Macro Brasil da FGV EESP (Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas) Marcelo Kfoury, doutor em economia pela Universidade de Cornell nos Estados Unidos.

    Para economistas, o maior problema do Brasil no curto prazo é a dívida do governo. Segundo eles, os gastos para o auxílio emergencial foram essenciais para permitir que as famílias pudessem sobreviver. Mas isso piorou a situação da dívida pública, e a questão agora é saber se o governo conseguirá retomar o controle das contas.

    “Todo nosso cenário é baseado no pressuposto de que o teto de gastos será respeitado em 2020 e 2021. Se furar o teto, teremos queda do PIB em 2021, com inflação e aumento de juros, que será necessário. Veremos assim mais fuga de recursos e piora do crescimento econômico”, afirma o professor da PUC Rio, José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos e doutor em Economia pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology).

    Fuga de investidores

    O receio de que o governo brasileiro não consiga controlar a dívida pública e tenha dificuldades até para rolar o endividamento já existente tem deixado os investidores – locais e estrangeiros – mais receosos. Isso explica os números negativos de investimento estrangeiro direto que estão afetando as contas externas do Brasil ao longo de 2020, dizem economistas.

    No acumulado do ano até setembro, o rombo nas contas externas soma US$ 6,5 bilhões. Nos 12 meses até setembro deste ano, o saldo das transações correntes está negativo em US$ 20,7 bilhões, o que representa 1,4% do PIB.

    Medo de mais gastos

    Para os economistas, o receio dos investidores ganha força sempre que surgem sinalizações dadas por integrantes do governo no executivo e no Congresso de que os gastos continuarão em 2021 sem controle. “Se tiver soluções ruins do lado fiscal, furando déficit ou aumentando impostos, isso piora o crescimento”, afirma Kfoury, da FGV.

    “Não falamos em abandono da agenda liberal, mas a queda de braço entre fiscalistas e populistas deve seguir por todo o atual mandato, dificultando o ingresso de capitais. Assim, a taxa de câmbio segue pressionada”, afirma a economista-chefe do Banco Ourinvest, Fernanda Consorte, com 10 anos de experiência nas áreas de economia e relações com investidores e passagens por Bradesco e Santander.

    Fonte: Uol

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