terça-feira, setembro 22, 2020
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    Após tombo, títulos de empresas ensaiam retomada e são opção na renda fixa

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    O impacto das medidas de isolamento social que afetaram a economia deixou nervosos aplicadores de fundos que investem em debêntures, notas promissórias e outros títulos de crédito privado. A desvalorização das cotas dessas carteiras provocou saques, e o rendimento desses produtos ficou negativo.

    Agora, passados seis meses desde o início da crise, os números dos fundos de crédito privado sinalizam que o pior deve ter ficado para trás. A variação média e a captação das carteiras voltaram ao terreno positivo. Segundo gestores de recursos, a recuperação tem sido alimentada pela retomada, ainda que gradual, da atividade econômica e pelos juros baixos.

    A grande incerteza que havia em abril e março sobre o tamanho do impacto da pandemia sobre as empresas hoje é bem menor.
    Ulisses Nehmi, CEO da Sparta

    Por que houve perdas

    A pandemia atingiu os fundos de crédito privado de duas formas. De um lado, as medidas de isolamento social afetaram a economia —empresas tiveram vendas reduzidas ou interrompidas. Surgiu o receio de que as emissoras de títulos, como debêntures, pudessem ter dificuldades para honrar pagamentos devidos aos investidores desses papéis.

    Além disso, no mundo financeiro, empresas que precisaram emitir debêntures novas para levantar recursos tiveram que pagar mais caro. Por regra de mercado, quando as taxas desses títulos sobem, os preços dos papéis caem. Assim, na primeira semana de maio, os fundos de crédito livre, segundo classificação Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), acumulavam perdas entre 1% a 2% no ano.

    Quem tinha dinheiro em carteira de crédito privado viu a cota de seu investimento perder valor. Embora essa perda só ocorra de fato se o aplicador sacar o dinheiro antes do vencimento dos títulos, muitos aplicadores mais nervosos recorreram aos saques. Segundo a Anbima, as retiradas líquidas acumuladas em 2020 chegaram a R$ 19 bilhões na primeira semana de maio.

    Incerteza agora é menor

    A reabertura da atividade econômica desde junho vem acalmando os investidores, especialmente porque o maior impacto da crise ocorreu sobre pequenas e médias empresas, enquanto as grandes companhias, líderes de mercado, sofreram menos.

    Ninguém hoje tem mais medo de que essas empresas grandes quebrem. Até porque já saíram os balanços das companhias do segundo trimestre e foi possível ver o impacto que, de fato, aconteceu.
    Ulisses Nehmi, CEO da Sparta

    Taxas voltam a cair

    Reflexo dessa melhora do ambiente está nas taxas. No começo de abril, uma empresa classificada como excelente pagadora e de baixíssimo risco de calote teve que pagar taxas da ordem de 105% do CDI para atrair investidores. E, mesmo assim, oferecendo prazos de vencimento mais curtos, de até dois anos.

    Hoje, empresas com esse perfil já conseguem captar recursos pagando taxas na casa de 102% a 103% do CDI. E os prazos também voltaram a alongar, para mais perto de seis anos, em média. Para comparar isso com uma aplicação de renda fixa mais tradicional, a caderneta de poupança paga 70% do CDI e o Tesouro Selic, do Tesouro Direto, ao redor do CDI.

    E, se as taxas caem, os preços das debêntures sobem. Assim, as cotas dos fundos de renda fixa de crédito privado se valorizam.

    Fundos voltaram a comprar

    Segundo a Anbima, as emissões de novas debêntures atingiram R$ 10,2 bilhões em agosto, volume 72,9% maior do que o apresentado em julho. No ano, a oferta desses papéis soma R$ 64,9 bilhões, ainda uma queda de 46,9% em relação ao mesmo período de 2019.

    Outro sinal de que o mercado de crédito privado está voltando à normalidade, dizem gestores, é o perfil de quem está comprando as novas debêntures. No auge da crise, quem mais pegou esses títulos das empresas foram os bancos. Agora, aos poucos, os fundos de investimentos voltaram a adquirir esses títulos para oferecer aos clientes.

    Quando uma empresa vai emitir debêntures, precisa contratar bancos para o processo da venda ao mercado. É comum, nesse tipo de operação, a instituição financeira intermediária ficar com parte da oferta, até como garantia de que o negócio não vai micar por falta de comprador.

    Mas, no auge da crise, os bancos pegaram a maior parte das debêntures. Em parte porque viram que as taxas estavam muito boas —e quiseram lucrar com os papéis. Em parte, porque muitos fundos estavam mais preocupados em vender parte das debêntures que tinham na carteira para atender aos pedidos de resgate dos clientes do que em aproveitar as oportunidades de mercado.

    Cenário para o investidor

    Com a taxa básica de juros a 2% ao ano, profissionais de mercado dizem que o rendimento dos tradicionais fundos DI que aplicam em títulos do governo vai seguir perdendo da inflação —assim como outras aplicações desse perfil, como Tesouro Selic e poupança. Por isso, apontam, fundos que aplicam em títulos privados, como debêntures e notas promissórias, CRIs e CRAs, tendem a ocupar parte do espaço das carteiras dedicadas à renda fixa.

    O crédito privado é alternativa para quem busca maiores retornos, principalmente considerando o atual cenário de juros baixos. Através dele, é possível optar dentre uma grande variedade de emissores, prazos curtos ou longos e remunerações pós ou prefixadas ou até atreladas à inflação, o que garante uma rentabilidade real
    Camilla Dolle, afirma a analista de renda fixa da XP Investimentos

    Segundo ela, esses ativos apresentam riscos, assim como qualquer outro tipo de investimentos.

    Dicas para o investidor

    Nessa retomada dos fundos de crédito privado, os gestores especializados no assunto apontam características que ganharam espaço e que merecem ser observadas pelos aplicadores na hora de escolher um fundo de renda fixa que compra títulos de empresas. Veja dicas de dois especialistas nesse mercado, o sócio gestor da Devan Asset, Bruno Eiras, e o gestor de crédito privado da Fator Administração de Recursos (FAR), Gustavo Pondian.

    • Caixa: Os fundos passaram a ter um percentual maior de dinheiro em caixa. Esse é o dinheiro que o gestor deixa separado, rendendo pouco, para atender pedidos de resgates. Quando faz isso, o gestor abre mão de parte do rendimento, mas tem a tranquilidade de atender clientes que queiram sair do fundo sem ter que vender ativos por preços muito baixos.
    • Setores: Debêntures de empresas que atuam em setores da economia que sofrem menos na crise ganharam importância nos fundos. É o caso de companhias de transmissão de energia ou saneamento, grandes líderes nos ramos de transportes ou as exportadoras. Essas empresas têm mais capacidade de manter as vendas mesmo na crise. Além disso, as debêntures dessas companhias são mais fáceis de serem vendidas no mercado secundário.
    • Indexadores: Com a Selic a 2% e o receio de que a inflação comece a subir, os títulos de empresas que têm o rendimento corrigido por índices de preços, como IPCA e IGP-M, ganharam importância. Fundos que aplicam em papéis indexados a esses indicadores garantem ao aplicador uma proteção extra contra a alta da inflação.

    Fonte: Uol

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