quarta-feira, fevereiro 24, 2021
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    Fim do auxílio e redução de empregos afetam consumo e produção

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    Para economistas, está cada vez mais claro que uma recuperação mais consistente da economia em 2021 vai depender de ações do governo e da distribuição de vacina para a população.

    Para o professor Écio Costa, da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), dados de novembro já retratavam a redução do auxílio emergencial. Nos meses anteriores, o benefício havia sido fundamental para estimular o consumo e sustentar a recuperação da produção industrial. Neste início do ano, porém, Costa avalia que o fator decisivo, que vai definir os rumos da economia neste ano, é a pandemia da Covid-19.

    “Se a gente não tiver vacinação em massa para deter o avanço do contágio, as medidas de restrição social voltam e veremos a economia afundar”, diz o professor da Universidade de Pernambuco .

    Segundo Costa, o estado é um exemplo dessa tendência. O governo estadual já proibiu música em bares e ameaça o acesso a praias, medidas importantes para conter o contágio, mas que vão prejudicar a já lenta recuperação do setor de serviços.

    “A vacinação é a saída mais importante para a economia em 2021″, afirma. “Precisamos iniciar o ano com um programa de vacinação amplo.”

    O economista Otto Nogami, do Insper, avalia que, dado o cenário atual, que o primeiro semestre deste ano será semelhante ao mesmo período de 2019, com baixa atividade e muita preocupação com a questão sanitária. A recuperação poderia ser mais robusta se o governo lançasse novas medidas para socorrer empresas e trabalhadores, diz o pesquisador.

    Para Nogami, o governo foi precipitado ao extinguir o auxílio emergencial sem levar em consideração o risco de nova onda da doença, nem adotar medidas alternativas para promover a geração de emprego. “Não fizeram nada para diminuir o volume de dependência [nos beneficiários]”.

    Agora, segundo ele, uma solução para garantir o crescimento seria uma política fiscal expansionista, com redução de carga tributária e investimentos públicos em obras. No entanto, não há espaço para esse tipo de medida emergencial, diante de um déficit fiscal gigante, que deve fechar 2020 em acima de R$ 800 bilhões, e engessamento da máquina pública. Mais de 90% das despesas são obrigatórios.

    “O governo teria como alternativa sinalizar à sociedade que tem boas intenções e, por exemplo, levar à frente a reforma tributária, a reforma administrativa, quem sabe até a própria reforma da reforma previdenciária”, afirma Nogami.

    Segundo ele, essas medidas permitiriam a contenção de gastos, reduziria déficit público e liberaria recursos para investimentos, inclusive investimentos em saúde, tão vitais no momento.

    “Essas medidas também trariam mais previsibilidade para os empresários e melhorariam o ambiente de negócios, incentivando o investimento privado”, diz o economista do Insper. “Abriria espaço para uma retomada mais firme.”

    O setor que mais atrai atenções é o de serviços, que ainda não recuperou as perdas na pandemia. Ele teve um crescimento mais acelerado em novembro, de 2,6%. No entanto, está 3,2% abaixo de fevereiro. Os ramos de restaurantes, hotéis e transportes, que exigem presença das pessoas, são os que têm mais dificuldades.

    Os serviços prestados às famílias tiveram alta de 98,8% desde maio, mas seguem 34,2% abaixo do nível anterior à chegada da Covid-19. O setor de transportes ainda está 5,4% abaixo do patamar de fevereiro, apesar do ganho de 26,7% no mesmo período.

    “Atividades como restaurantes, hotéis, serviços prestados à família de uma maneira geral, e transporte de passageiros, seja o aéreo, o rodoviário e ou o metroviário, até tiveram alguma recuperação, mas o distanciamento social ainda não permite que o setor volte ao patamar pré-pandemia”, afirmou Rodrigo Lobo, do IBGE.

    De acordo com Thiago de Moraes Moreira, do Ibmec, esses são setores que normalmente são utilizados por famílias de maior renda, portanto, não são afetados por benefícios governamentais como o auxílio emergencial.

    Moreira também acredita que esse será a principal variável de 2021: o controle da pandemia.

    “A sustentabilidade da recuperação depende mais da vacina e menos de política de transferência de renda, taxas de juro e câmbio”, diz Thiago.

    Na sua avaliação, o crescimento no número de óbitos – o país voltou a ter 1,2 mil por dia nesta semana – ameaça a retomada.

    “Isso vai, de novo, quebrar a trajetória de recuperação dos serviços, e aí estaremos no pior dos mundos”, diz ele. “Indústria e comércio sofrendo em função do desemprego e os serviços parando outra vez por causa da pandemia é cenário muito complicado”, afirma Moreira.

    A incerteza no mercado de trabalho é outro tema sensível do ano passado que já contamina as perspectivas neste início de 2021. Segundo o IBGE, o Brasil tinha 14,1 milhões de desempregados no trimestre encerrado em outubro, 931 mil a mais do que no trimestre móvel anterior, encerrado em julho.

    Apesar de dados positivos, como o aumento de brasileiros com algum tipo de trabalho em 2,8%, ou 2,2 milhões de pessoas – sendo 2 milhões de informais -, e o crescimento de 1,3% no número de trabalhadores com carteira assinada, a elevação da taxa de desemprego indica que o mercado ainda não tem condições de absorver todos que buscam uma vaga.

    O professor Luiz Roberto Coelho Nascimento, da UFAM (Universidade Federal do Amazonas), afirmou que, ainda que se controle a pandemia e minimize o distanciamento social, o aumento da ocupação terá pela frente grandes desafios.

    “A contratação de trabalho está associada ao movimento para frente do consumo das famílias, dos investimentos privados, política de crédito e controle fiscal, ou seja, estabilização das despesas públicas”, afirmou. O professor acredita que a informalidade poderá sair na frente contratando, por ser mais flexível do que o setor formal, que deve se reerguer de maneira lenta e gradual.

    Fonte: Folha

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