sexta-feira, maio 20, 2022
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    Parceria entre universidade e produtores cria polo fruticultor na região do Caparaó

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    O agricultor Marciano de Oliveira não tem ideia da melhor época para o plantio do maracujá, quando é feita a colheita ou se o maracujazeiro é uma planta de sol ou de sombra.

    Na comunidade quilombola onde ele vive, no município de Guaçuí (ES), as 21 famílias plantam milho e aipim e vivem da venda de farinha, fubá e canjiquinha. Mas agora Marciano vai aprender mais sobre o maracujá e outras frutas.

    Na região conhecida como Caparaó, que engloba 11 municípios na divisa do Espírito Santo com Minas Gerais, será implementado o projeto de investimento e profissionalização de agricultores para formar o novo Polo Tecnológico de Fruticultura do Caparaó. Estima-se que a região será capaz de produzir, inicialmente, 1.200 toneladas de frutas por ano. Marciano será um dos beneficiados.

    A iniciativa reúne a Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo), a Embrapa Mandioca e Fruticultura e o Incaper (Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural), além de sindicatos e prefeituras.

    O investimento federal, de R$ 4 milhões, vai beneficiar agricultores de uma região com aproximadamente 180 mil habitantes, dos quais 38% vivem na área rural.

    Ao todo, serão instaladas 44 URTs (unidades de referência tecnológica), ocupando uma área total de aproximadamente 60 hectares.

    O projeto tem quatro etapas. A primeira, finalizada em setembro, foi o diagnóstico da aptidão agrícola das terras e a seleção de onde serão instaladas as URTs para a implantação das culturas.

    As fases seguintes são a melhoria da infraestrutura da universidade para capacitação dos envolvidos, a instalação efetiva das URTs e a capacitação dos produtores.

    As frutas que serão produzidas vão depender do diagnóstico inicial, mas entre as principais culturas estão abacaxizeiro, aceroleira, bananeira, cajazeiro anão, citros, goiabeira, gravioleira, mangueira, videira e abacateiro. O projeto contempla o acompanhamento dos produtores desde a escolha do local até três anos após o plantio.

    A idealização do projeto teve início em 2018, quando Dirceu Pratissoli, professor e diretor do CCAE (Centro de Ciências Agrárias e Engenharias) da UFES, procurou o engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Dimmy Barbosa, que na época ocupava a Superintendência Federal de Agricultura do Espírito Santo.

    Barbosa se preocupava com a falta de perspectiva de trabalho para os jovens da região.

    Juntos, eles apresentaram para a senadora Rose de Freitas (MDB-ES) o projeto Polo de Fruticultura do Caparaó. Ela se comprometeu a buscar recursos junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e, de fato, o projeto foi aprovado pelo então ministro Blairo Maggi. Contudo, os recursos não foram liberados na época —eram os últimos dias do governo de Michel Temer (MDB).

    Somente em setembro de 2020 ocorreu a liberação orçamentária da primeira etapa do projeto, com valor de R$ 730 mil. Há cerca de um mês, houve a formalização do termo aditivo para a liberação da segunda parcela, no valor de R$ 3,3 milhões.

    Barbosa destaca que uma etapa importante da iniciativa tem sido a mobilização e a sensibilização dos prefeitos, secretários de agricultura e técnicos dos 11 municípios envolvidos.

    “Trata-se de uma região que baseia sua economia na monocultura cafeeira e na pecuária de leite de baixa tecnologia, que tem estado estagnada por muitas décadas”, diz o engenheiro. “O projeto é uma grande oportunidade de diversificação da agricultura do Caparaó, proporcionando oportunidades, com a geração de emprego e renda.”

    A coordenação do projeto foi assumida por Moises Zucoloto, professor de fruticultura do Departamento de Agronomia da UFES. Ele explica que, para a seleção dos agricultores, foram estabelecidos requisitos mínimos, como ser uma propriedade de fácil acesso, com área mecanizável, energia elétrica e conectada via internet.

    A instalação de cada unidade de referência vai custar, em média, R$ 80 mil.

    “São locais onde serão introduzidas culturas com aptidão para a região e usadas todas as tecnologias necessárias para gerar altas produtividades, além de frutos de tamanho padrão para serem comercializados”, diz Zucoloto.

    As URTs também serão objetos de pesquisas, acrescenta Barbosa. Elas serão implantadas com diferentes genótipos de cada fruteira e, no decorrer do tempo, os pesquisadores avaliarão quais se adaptaram melhor na região do Caparaó.

    Passados os três anos de capacitação e acompanhamento, com as informações de todos os envolvidos integradas, cada produtor terá condição de implementar outra cultura.

    O projeto ainda está em fase inicial, mas as previsões são otimistas. A UFES projeta que cada produtor tenha capacidade de produzir 20 toneladas/ano, somando as 1.200 toneladas estimadas.

    A expectativa é, considerando um preço médio de R$ 2 por quilo, alcançar, ainda no segundo ano de produção, cerca de R$ 2,4 milhões de retorno financeiro.

    No caso do quilombola Marciano, que vive na comunidade Córrego do Sossego, as tradições não serão deixadas de lado, mas a modernidade chega para agregar.

    “Trabalhamos com essas culturas da mandioca e do milho desde a época dos nossos avós, mas hoje o que rende para cada família é menos de R$ 100 por mês. Estamos muito esperançosos com o polo de fruticultura.”

    Quem já trabalhava com frutas também se animou com o projeto. O grupo As Camponesas, que reúne mulheres do assentamento Florestan Fernandes, do MST ( Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), entre São José do Calçado e Guaçuí, tem uma pequena agroindústria, onde transformam as frutas que plantam em geleias e licores.

    Assim, dois lotes das terras entrarão no projeto do polo para plantio de abacaxizeiro, aceroleira e maracujazeiro, com acompanhamento dos docentes, diz a agricultora Nelci Sanches.

    “Nós já trabalhamos com frutas, mas nos faltam vários conhecimentos, como a hora certa para a poda, o tratamento de pragas e, principalmente, a produção de orgânicos para termos um produto mais natural e de qualidade. Vai ser uma formação muito importante.”

    Mulher segura fruta na mão em meio a plantação
    A agricultora Nelci Sanches da Rocha do coletivo Campesinas. Ela colhe frutas orgânicas na região que vem se transformando num grande polo frutífero – Bruno Miranda/Folhapress

    R$ 4 milhões
    É o valor do investimento federal na região de Caparaó para desenvolvimento do polo fruticultor

    38%
    Percentual dos 180 mil moradores da região que vivem na área rural

    R$ 2,4 milhões
    Produção de faturamento para o segundo ano de produção feito pela Ufes 9Universidade Federal do Espírito Santo)

    Fonte: Folha

    Fusões e Aquisições

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